sexta-feira, 20 de agosto de 2010

CANTO DE AGONIA

Agonia de amor, agonia bendita!
- Misto de infinita mágoa e de crença infinita.
Nos desertos da Vida uma estrela fulgura
E o Viajeiro do Amor, vendo-a, triste, murmura:
- Que eu nunca chore assim! Que eu nunca
[chore como
Chorei, ontem, a sós, num voluptuoso assomo,
Numa prece de amor, numa felícia infinda,
Delícia que ainda gozo, oração, prece que ainda
Entre saudades rezo, e entre sorrisos e entre
Mágoas soluço, até que esta dor se concentre
No âmago de meu peito e de minha saudade.
Amor, escuridão e eterna claridade...
- Calor que hoje me alenta e há de matar-me
[em breve,
Frio que me assassina, amor e frio, neve,
Neve que me embala como um berço divino,
Neve da minha dor, neve do meu destino!
E eu aqui a chorar nesta noite tão fria!
Agonia, agonia, agonia, agonia!
- Diz e morre-lhe a voz, e cansado e morrendo
O Viajeiro vai, e vê a luz e vendo
Uma sombra que passa, uma nuvem que corre,
Caminha e vai, o louco, abraça a sombra e...
[morre!
E a alma se lhe dilui na amplidão infinita...
Agonia de amar, agonia bendita!


Augusto dos Anjos

3 comentários:

  1. lindo, lindo.. copiando no meu diário. Essa galera parnasiana, sabe escrever umas coisa bem escrita, que sei não, viu!

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